Tricotando as pontes entre o improvável.


Raqquel tinha 18 anos quando viu o Carandiru pela primeira vez. Ela havia acabado de se mudar para São Paulo e, do metrô de superfície, avistou aqueles homens pendurados na grade, “vendo o trem passar”. Aquela cena a tocou profundamente e Raqquel sentiu vontade de conhecer a realidade daquelas pessoas de perto. “No presídio havia de tudo. Menos trabalho. Eu só conseguia ver que por trás daqueles muros estavam seres humanos precisando de oportunidade”, conta.

Algum tempo depois, nascia o Flor de Lótus, um projeto que ensinou homens, presidiários em uma unidade de segurança máxima, a arte do tricô. “Todos nós, nesta condição humana, precisamos de um componente para florir o caminho: o sonho. Eu sonho, acredito e tenho fé na mudança, seja ela total ou parcial, singular ou plural, pequena ou grande”, diz a mineira que passou a infância e adolescência circulando entre as fábricas têxteis do seu pai e do seu avô. Uma história entrelaçada que a levou para a faculdade de Moda e para perto das agulhas do tricô e do crochê. Raquel Guimarães tornou-se estilista e criadora da Doiselles. “Como uma típica mineira, fui iniciada na escola de todas as prendas e me saí bem nessa coisa de tramar a lã no inverno e o algodão no verão. É o que posso fazer de melhor. ”

Junto com a mãe ela abriu a empresa e contava com a ajuda de vizinhas para atender as encomendas. Com cada uma trabalhando no seu canto, a produção ficava dispersa e o ritmo lento. Foi quando Raqquel pensou que, para prosperar, ela precisava ensinar o que sabia para um grupo de pessoas. Em busca de gente que quisesse – e precisasse – aprender uma profissão, que sua empresa ganhou uma unidade dentro do pavilhão 1 da Penitenciária Professor Ariosvaldo de Campos Pires.

Foi assim que 40 homens começaram a sair de suas celas e se reunirem em uma sala para manejar agulhas e linhas sob orientação de Raqquel. “Gente que mal sabia a diferença entre blusa e camisa começou a amar e a vibrar com a moda. Hoje eles sabem até quem é John Galliano”, diverte-se.

Um acontecimento improvável? Muito. Impossível? Raqquel mostrou que não. “Criação para mim é ligar dois lugares onde antes não havia um caminho. É transpor o improvável. Num ambiente de tanta tristeza e violência, nasce um produto carregado de beleza e sensibilidade. Essa é a grande beleza dessa história porque ela fez o improvável de uma maneira simples”.

Moda sustentável.

A sustentabilidade em recursos materiais é sempre a face mais visível das empresas. E a Doisseles também tem esse cuidado: é uma fábrica de resíduo zero, onde tudo é reaproveitado. Mas o que Raqquel deseja com o seu projeto é defender a sustentabilidade em recursos humanos. “As empresas precisam olhar para essas pessoas como uma possibilidade. Isso é dar uma segunda chance para quem não teve sequer uma primeira. A pena só terá sentido se essas pessoas puderem ser socializadas”.

Raqquel ganhou o Brasil e o mundo com suas criações pelo design, pela qualidade, mas também por ser socialmente responsável, segundo ela, um grande diferencial. Para a empresária, o empreendedor que não pensa em sustentabilidade caminha para o colapso e leva a sociedade em que ele vive junto.


Empatia.

Do presídio para as passarelas do mundo inteiro. Dois universos completamente diferentes que se encontram pela empatia, pela capacidade de se colocar na pele do outro.

Para Raqquel o luxo não está na marca em sim, mas no que ela resgata de valores do trabalho manual. Uma roupa pode demorar até cinco dias para ser produzida exclusivamente por um artesão que, com um novelo de fio e uma agulha, faz uma peça inteira. É o que vem sendo chamado de slow fashion.

Para o futuro, a estilista quer expandir seu objeto de venda para produtos mais baratos, que não demorem tanto tempo para serem feitos, e entrar no mercado de objetos de decoração. O raciocínio é simples: “mais venda, mais postos de trabalho, menos inserção no crime”, explica.

Atualmente, com a mudança de Raqquel para Belo Horizonte (MG), são as presidiárias do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto que recebem a oportunidade de aprender a profissão e produzir as peças da Doisseles. “Não pretendo competir com o crime. Quero mudar o dia do sujeito enquanto ele paga à sociedade, qualquer que seja o dano que lhe causou. O maior valor de um homem é a liberdade. Quando ela lhe é tirada por falta de merecimento, o seu maior bem passa a ser o tempo. Portanto me parece óbvio que ocupar estas mãos e mentes com trabalho digno é um caminho firme na ajuda do maior princípio que inspira o cárcere: a recuperação”.

 

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